A parte de que ninguém fala
Toda a gente fala de canabinóides, muita gente fala de terpenos, e quase ninguém fala da terceira família. Os flavonóides são um grupo de compostos vegetais presente em praticamente todas as plantas superiores, e o cânhamo não é excepção.
Não aparecem nos boletins, não aparecem nos rótulos e não aparecem nas descrições comerciais. Esta página explica o que são, o que fazem na planta, e porque é que a ausência de dados é o facto mais importante a seu respeito.
⚠️ Nota de enquadramento. A autorização de cultura da DGAV cobre fibra e semente; a inflorescência não está lá. Esta página descreve química vegetal e destina-se a compreensão.
O que são
Uma família de metabolitos secundários
Compostos que a planta produz não para funções vitais básicas, mas para interagir com o ambiente: protecção, coloração, sinalização.
Onde mais aparecem
Praticamente em todas as plantas. Frutos, chá, vinho, cacau, citrinos, cebola. São uma das famílias de compostos vegetais mais estudadas que existem.
O que fazem na planta
Protecção contra radiação ultravioleta, pigmentação, defesa contra agentes patogénicos, e sinalização com organismos do solo.
E a relação com as antocianinas
As antocianinas — os pigmentos que fazem a flor ficar roxa — pertencem a esta mesma família. É a parte dos flavonóides que se vê.
Onde estão na planta
Nas folhas
Em concentração relativamente alta. É onde a função de protecção contra radiação é mais necessária.
Nas brácteas
Presentes, e em parte responsáveis pela coloração quando esta se expressa.
Nos tricomas
Muito menos do que canabinóides e terpenos. A glândula concentra sobretudo as outras duas famílias.
E é essa a razão da ausência
Uma resina separada mecanicamente concentra o conteúdo dos tricomas. Se os flavonóides estão sobretudo noutros tecidos, a resina tem-nos em proporção baixa.
Porque é que os boletins não os medem
Não há exigência regulamentar
Nenhuma norma obriga a quantificá-los num produto de cânhamo. O que a lei exige é o teor de THC e, consoante o produto, painéis de contaminantes.
Não há procura comercial
Nenhum vendedor os anuncia, e portanto nenhum comprador os pede. É um ciclo que se mantém sozinho.
A análise é diferente
Exige métodos distintos dos usados para canabinóides e terpenos. Acrescentar o painel acrescenta custo real.
E não há referência para comparar
Sem valores típicos publicados e sem histórico, um resultado isolado não teria com o que ser comparado. É uma lacuna que se auto-perpetua.
A tabela das três famílias
| Canabinóides | Terpenos | Flavonóides | |
|---|---|---|---|
| Onde se concentram | tricomas | tricomas | folhas e brácteas |
| Aparecem no boletim | sempre | por vezes | praticamente nunca |
| Regulados por lei | sim, o THC | não | não |
| Volatilidade | baixa | alta | muito baixa |
| Contribuem para o aroma | pouco | muito | pouco |
| Contribuem para a cor | pouco | não | sim |
| Estudo científico | extenso | crescente | extenso noutras espécies |
O que se sabe e o que não se sabe
O que está estabelecido
Que existem, que a planta os produz, e que pertencem a famílias químicas bem caracterizadas noutras espécies.
O que está parcialmente descrito
A composição típica em cânhamo, que está documentada em literatura científica mas sem os valores de referência que um sector comercial usaria.
O que não está estabelecido
Qualquer efeito em quem consome. Não existe na União Europeia uma única alegação de saúde autorizada para o canabidiol nem para estes compostos em produtos desta categoria.
E o que este site não vai fazer
Especular. A ausência de dados é um facto sobre o estado do conhecimento, e não um convite a preencher o espaço com suposições.
O que a sua presença explica
A cor
A parte visível. Antocianinas pertencem a esta família, e a coloração roxa é a sua manifestação mais óbvia.
O amargor
Vários flavonóides têm sabor amargo ou adstringente. Contribuem para o carácter de material com proporção alta de folha.
A diferença entre flor e aparas
Material com mais folha tem mais flavonóides. É uma das razões pelas quais a fracção foliar tem carácter distinto.
E porque é que um extracto refinado sabe a menos
Cada etapa de refinação remove compostos não canabinóides. Um destilado tem praticamente nada desta família — nem das outras duas.
O que mudaria se fossem medidos
Uma descrição mais completa do material
Três famílias em vez de duas. Um perfil mais próximo do que a planta realmente contém.
Uma forma de distinguir origem
A proporção entre famílias distingue material de flor de material de aparas de forma que hoje nenhuma análise consegue.
Um indicador de refinação
Um extracto com flavonóides presentes passou por menos refinação do que um sem eles. É informação sobre o processo.
E uma lacuna comercial fechada
Deixaria de haver uma família inteira de compostos sobre a qual ninguém tem dados. É a razão pela qual vale a pena falar deles.
Como se comparam com as outras duas famílias
Em estabilidade
São muito mais estáveis do que os terpenos. Não evaporam à temperatura ambiente e degradam-se lentamente.
Em solubilidade
Muitos são mais solúveis em água do que canabinóides e terpenos, o que muda o comportamento em extracção.
Em concentração
Presentes em quantidades comparáveis às dos terpenos nalguns tecidos, e muito inferiores nos tricomas.
E em visibilidade
São a única das três famílias com manifestação visível directa. A cor é a sua assinatura.
O que a extracção faz a esta família
Na separação mecânica
Praticamente não os recolhe. O método recolhe cabeças de tricoma, e é aí que eles não estão.
Na extracção com solvente
Depende do solvente. O etanol, que é polar, dissolve-os melhor do que solventes apolares.
Na winterização
Parte precipita junto com outros compostos não canabinóides. É mais uma fracção que a refinação remove.
E na destilação
Removidos praticamente por completo. Um destilado é canabinóide e pouco mais.
Onde o estudo desta família está mais avançado
Nos alimentos
Frutos, chá, vinho e cacau têm literatura extensa, com valores de referência e métodos normalizados.
Nos cosméticos
Usados como ingredientes com função declarada, com enquadramento regulamentar próprio.
Na agronomia
Estudados como marcadores de stress e de resposta a condições de cultivo em muitas espécies.
E o que falta aqui
A transposição para esta cultura, com valores típicos publicados e métodos que os laboratórios comerciais ofereçam por rotina.
Porque é que esta página existe
Para nomear a lacuna
Um sector que fala de duas famílias e ignora a terceira está a descrever o produto de forma incompleta.
Para não a preencher com especulação
A tentação seria atribuir-lhes efeitos. Não existe base para isso e não existe autorização legal para o afirmar.
Para dar a quem pergunta uma resposta honesta
«Existem, estão sobretudo nas folhas, e ninguém os mede» é uma resposta melhor do que o silêncio ou do que uma promessa.
E para tornar visível o que falta
Quando um produtor decidir publicar um perfil desta família, será a primeira vez que há dados. Vale a pena que alguém note.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Metabolito secundário — composto que a planta produz para interagir com o ambiente, e não para funções vitais básicas.
Antocianina — subfamília de flavonóides responsável pelas cores roxas e avermelhadas.
Adstringência — a sensação de secura na boca associada a certos compostos vegetais.
Destilado — extracto refinado por destilação, com praticamente só canabinóides.
Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Como isto se cruza com o resto do site
A coloração roxa descreve a parte visível desta família. Os terpenos principais descrevem a segunda família. O destilado e o isolado explicam o que a refinação remove. E o efeito comitiva resume o que se sabe e o que não se sabe sobre interacções entre compostos.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Não vais encontrar esta informação. É uma lacuna do sector inteiro, e não um defeito de um vendedor concreto.
Se estás a avaliar um vendedor
Um que os menciona sem dados está a usar a palavra como argumento. Um que os menciona com um perfil publicado está a fazer algo que praticamente ninguém faz.
Se estás só a tentar perceber
Guarda a localização: estão sobretudo nas folhas e nas brácteas, não nos tricomas. Explica porque é que quase não aparecem numa resina.
O que este site publica, e porquê
Não registamos flavonóides porque não há dados para registar. Quando um produtor publicar um perfil, regista-se — e é a única forma de a lacuna começar a fechar.
O que pedir, quando se pede
O painel completo
Se um produtor oferecer análise desta família, o valor está em ter a lista com valores por composto e não um total agregado.
O método
Como em qualquer análise, o método usado condiciona o que se detecta e a que limite.
O tecido analisado
Folha, flor ou extracto. A proporção muda tanto entre tecidos que sem essa indicação o número não se interpreta.
E a data
A mesma regra de sempre. Uma análise sem data descreve um momento que ninguém consegue situar.
O que se sabe sobre a composição em cânhamo
Os grupos identificados
A literatura descreve vários subgrupos presentes na espécie, alguns comuns a muitas plantas e outros descritos com mais frequência nesta.
A variação entre tecidos
Considerável. Folha, bráctea e semente têm composições diferentes, e a literatura reporta essa diferença.
A variação entre variedades
Também existe, e é menos estudada. Sem valores de referência por variedade, não há forma de a usar comercialmente.
E a variação com as condições
Como acontece com qualquer metabolito secundário, luz e stress influenciam a produção. É outra frente por caracterizar.
Um resumo em cinco linhas
- São a terceira família de compostos da planta, ao lado de canabinóides e terpenos.
- Estão sobretudo nas folhas e brácteas, não nos tricomas — daí quase não aparecerem em resinas.
- Praticamente nenhum boletim os mede, por ausência de exigência e de procura.
- As antocianinas pertencem a esta família — são a parte que se vê.
- Não existe alegação de saúde autorizada na UE para estes compostos nesta categoria.
O que estes compostos são
Uma família ampla
Presente em muitas plantas, responsável por cores e por parte do sabor.
Onde se encontram
Em folhas, flores e outras partes, em proporções que variam com a espécie e com as condições.
O que fazem na planta
Funções de protecção contra radiação e contra agressores, além da pigmentação.
Quanto há nesta planta
Pouco, comparado com os compostos que dominam o perfil. É a razão pela qual raramente se medem.
Porque quase não aparecem nos boletins
Não são exigidos
Nenhuma norma os inclui nos painéis obrigatórios.
A análise é específica
Exige método próprio, distinto do usado para os compostos habituais.
O custo
Acresce, e sem procura ninguém o assume.
O que isso deixa
Uma família de compostos frequentemente invocada e quase nunca medida.
O que se sabe sobre eles
Estudos laboratoriais
Abundantes, sobre propriedades químicas e sobre actividade em sistemas celulares.
Estudos em pessoas
Poucos, e centrados noutras fontes vegetais, não nesta.
O que se transfere
Pouco. A matriz e as quantidades diferem, e ambas importam.
O que se conclui
Que a presença está documentada e o significado prático não está.
Como são usados no discurso comercial
Como argumento de complexidade
Sugerindo que o extracto contém mais do que os compostos habituais.
Como apoio à hipótese de sinergia
Ligando duas afirmações igualmente indemonstradas.
Como diferenciação
Mencionando uma família que a concorrência não menciona.
O que falta em qualquer dos casos
Uma medição que mostre quanto está presente no produto concreto.
O que a cor indica
Alguns destes compostos são pigmentos
E contribuem para tons que se afastam do verde.
O que mais contribui
Temperatura durante o desenvolvimento, genética e estado de maturação.
O que isso implica
Que a cor não permite inferir a presença destes compostos em quantidade relevante.
Onde isto costuma ser usado
Em material de tons arroxeados, apresentado como se a cor provasse composição.
O que a análise mostraria
Identificação
Quais compostos estão presentes.
Quantificação
Em unidades comparáveis entre produtos.
Comparação
Entre lotes e entre casas, que hoje não é possível.
Porque não se faz
Porque ninguém a pede, e é a resposta que se repete em todo este site.
O que se perde no processamento
Na extracção
Depende do solvente e das condições. Alguns são pouco solúveis nos solventes habituais.
Na destilação
Perdem-se, por não serem voláteis nas condições usadas.
Na cristalização
Perdem-se por completo.
O que isso significa
Que um isolado não os contém, e que um destilado os contém em quantidade reduzida.
O que isso implica para as categorias de extracto
Espectro completo
É onde poderiam estar em maior quantidade.
Espectro largo
Depende do passo de remoção usado.
Isolado
Não os contém.
O que verificar
Um perfil analítico, se existir. Sem ele, a afirmação de presença não se verifica.
O que perguntar
Se existe análise
Que os inclua. A resposta é quase sempre não, e a pergunta em si é útil.
Que compostos
E em que quantidade, se a resposta for sim.
O método
Porque a comparação entre laboratórios exige que seja o mesmo.
O lote e a data
Como sempre.
O que fica por dizer
Se contribuem para alguma coisa
Não há base para afirmar nem para negar no contexto deste produto.
Quanto está presente
Não se mede, e por isso não se sabe.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Ler qualquer menção a estes compostos como afirmação não verificada, salvo análise que a acompanhe.
Como distinguir uma menção séria de uma decorativa
A séria
Vem com valores medidos, método e lote.
A decorativa
Menciona a família, sem número nem análise.
A intermédia
Cita literatura sobre outras plantas, sem ligar ao produto.
Qual é a mais comum
A decorativa, com grande margem.
O que este site faz com esta família
Descreve-a
Porque existe e porque é mencionada.
Não lhe atribui efeito
Porque não há base para o fazer neste contexto.
Assinala a lacuna
Que é a ausência de medição de rotina.
Porque isto interessa
Porque a lacuna é fácil de fechar e continua aberta por falta de procura.
Perguntas frequentes
Os flavonóides fazem alguma coisa?
Na planta, sim: protecção, pigmentação e defesa. Em quem consome, não existe na União Europeia nenhuma alegação de saúde autorizada.
Porque é que não estão nos boletins?
Porque nenhuma norma os exige e nenhum comprador os pede. A análise existe e acrescenta custo sem procura que a justifique.
A cor roxa é um flavonóide?
É. As antocianinas pertencem a esta família e são a sua manifestação visível.
Um extracto tem flavonóides?
Muito poucos, e tanto menos quanto mais refinado for. Um destilado praticamente não os tem.
Distinguem flor de aparas?
Em princípio sim, porque a proporção entre famílias muda com o tecido. Na prática ninguém o faz, porque não há análise de rotina que os quantifique.
Vale a pena pedir a análise?
Vale sempre a pena perguntar. A resposta descreve o quanto o produtor conhece o próprio produto, mesmo quando a análise não existe.